quarta-feira, 12 de novembro de 2014

QUASE UM SONETO (PARA A MENINA DA ÁGUA)



Ela, menina da água
Presente da fonte e do azul da piscina
Sereia de sonho sem mágoa
A água que banha a menina

Eu, cara da luz
O louco, o fósforo, o acendedor
Trapezista de postes quebrados
Palhaço que sonha o amor

Somos totais diferenças
Dos janeiros à intensidade
Sou breve facho de lua
Ela é a luz da cidade


terça-feira, 28 de outubro de 2014

MURO DE BERLIM


Perdemos a oportunidade da mudança... Perdemos a chance de dizer não aos ladrões, corruptos, salafrários que por anos roubam, zombam e tripudiam! Pronto e acabou!

A verdade é que o norte/nordeste não se resume a Genoíno, Lula, Sarney, Collor, Renan, e etc... Querer culpar os nordestinos pela derrota é um ato covarde, de tremenda burrice e insanidade... A única culpa, se houver, é da exploração a qual nossos nordestinos sempre foram submetidos.

Há quanto tempo ouvimos falar da tal “indústria da seca” (uma eterna roubalheira), das promessas de transposições, das cisternas, poços artesianos, chuvas milagrosas e etc.. Tudo, absolutamente tudo, argumentos nefastos para repasse de verbas que jamais chegaram - pelo menos, aos necessitados!

Não... O ônus da derrota não é deles, definitivamente não!

O que sobrou aos nossos nordestinos senão pedir chuva, aos céus, pra plantar e colher?

Nada, nada, nada, aliás, sobrou sim! Sobrou este cabresto chamado “bolsa família”, porém, pra alguns deles a única chance de comida na mesa, isto é fato! Mais uma vez, vítimas eleitorais da arma: exploração!

Trabalhadores que esperam, pelo menos, uma gota pra preparar a terra... Trabalhadores que passam sede e fome... Trabalhadores que contra a vontade, muitas vezes, se obrigam a deixar suas origens para “tentar a sorte” (camelar) em terras estranhas!

Sabe quem, literalmente, construiu a “gigante” São Paulo, por exemplo? Pois é! Sim! Foram eles: os “cabras arretados” norte/nordestinos. Euclides da Cunha profetizou: “o sertanejo é, acima de tudo, um forte”!

Agora esse papo de separatismo? Pra cima de mim não, Mané! Não tolero nem admito tal proposta... O Brasil é nossa casa, e eu, me recuso a colocar um “muro de Berlim” em meu quintal.

Não abro mão dos nordestinos que embalaram e embalam meus sonhos - e minha poesia... Como, em sã consciência, eu me separaria do Armando Nogueira, Chico Anísio, Ferreira Gullar, Catulo, Santana Filho e os rios de nossas vidas?

Eu, sem Suassuna e seu mundo fantástico? Sem poder aprontar por aí com Chicó e João Grilo, meus preferidos? Nem fudendo ‘mermão’, nem fudendo!!

Eu, sem os filhos de Dona Canô, Chico César, Raulzito, Fagner, Zé Ramalho, Zé Geraldo e Zeca Baleiro pra cantarem nossos sonhos?  Eu sem Moraes Moreira e Alceu? Me poupem, to fora!

Abaixo assinado pra criação de República Farroupilha, República dos Pampas ou República da Puta que o Pariu?

Comigo não – enfiem no rabo!

Por aqui sigo ouvindo “Fotografia 3x4” com o Belchior!




sábado, 18 de outubro de 2014

MEUS DISCOS ENVELHECERAM

Ao entrar em casa para meu merecido ‘descanso do guerreiro, o filho caçula e seus amigos de turma do Instituto Federal do Paraná, de Jacarezinho,        estavam esparramados pela sala, todos, sem exceção, com iPhone em punho (ou, sei lá que tipo de celular eles possuem), fones de ouvido nos orifícios auriculares, uniformes da geração: bonés, bermudas e camisetas coloridas... 

Enquanto abro a porta um dos aparelhos repetia um refrão infame: “você não quis? perfeito, sua amiga quis e foi daquele jeito: tapa na cara – na bunda – puxão de cabelo...”!

Ao notarem minha presença, movimento simultâneo, retiram os fones dos ouvidos e cumprimentam em coro:

- Beleza João? 

- Beleza! Imito o gesto fechando a mão - erguendo o polegar.

Antes de me dirigir para o ‘jardim de inverno’, procuro e não encontro o “Rio” do Santana Filho – eu precisava reler a parte dos banhos de rio e dos carneiros errantes... Alguém deve ter emprestado (e não devolvido) pensei.

Não tem tu, vai tu mesmo - diria meu avô, acabei pegando uma de minhas relíquias: um exemplar do Almanaque Capivarol, que ganhei na Farmácia Arruda, no final de 1979.

Abro o almanaque e me deparo com um charlatanismo sincero do xarope patrocinador: “Sonhei com Nossa Senhora e ela me mostrou um vidro de remédio para maleita, minha filha tomou Capivarol e melhorou na hora!”... 

Puta que pariu, essa foi pior que a “música” que a rapaziada ouvia na sala.

Eu nem quis seguir a leitura... Elixires, pílulas, xaropes, receitas de bolo, melhor lua para plantio e pesca, horóscopo e tudo mais, fica pra próxima.

O que essa geração, pós sertanejo universitário, saberia de poesia, de almanaques, de rios - Mário Quintana, goma arábica, fita cassete, camisa volta ao mundo e calça boca de sino?

O que sabem eles de Santana Filho (aquele que escreve palavras estrondosas e garrafais - em caixa baixa), bancas de jornais, barbearias e máquinas de escrever?

O que saberão de Cora Coralina, bola de capotão, de aulas de francês nas sétimas e oitavas séries? Terão conhecimento de Juca-Pirama e indianismo, Guimarães Rosa - Riobaldo e Diadorim, grandes sertões, lambretas e cuba-libre? 

Teriam, mesmo que por engano, ouvido Belchior ou Paulinho Tapajós? Zé Geraldo ou Adriana Calcanhoto? 

Como mostrar meus discos envelhecidos para os clientes do McDonald’s que, por hora, curtem Fernando e Sorocaba (affff!!!) na sala?

Retiro meu coturno, descalço minhas meias, estico minhas pernas sobre a namoradeira e, ainda vestindo antichama, antes de fechar meus olhos, avisto um dos estudantes tecnológicos, ao lado das violetas na janela que confessa estar lendo o livrinho azul subtraído da minha estante.

Neste instante um incontido contentamento toma conta de mim, e eu, sonhador e conhecedor do “Rio” e livros azuis, sou notificado que nem tudo está perdido... Fecho os olhos e, alegre, mergulho num cochilo:

Tchibum!!!!!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

UMA SALVA DE PALMAS PARA OS LOUCOS!

Acordei na madrugada com uma puta câimbra na panturrilha... Levantei, tomei um Dorflex e enquanto fazia uma visita ao banheiro percebi um louco, num acalorado auto diálogo, do outro lado da rua.

Empunhando um microfone imaginário e de frente para o poste com luz de mercúrio, ele, feito pastor pedindo dízimo, berrava anunciando o fim do mundo:

“- Da outra vez o mundo acabou em água, agora não, tudo acabará em fogo, e queimará todos os pecadores e suas línguas venenosas, pois a língua é a única arma desses fariseus, que imaginam serem os donos do mundo, mas, nada, nada entendem de respeito ao próximo...”.

Após o discurso inflamado, mirando o bar com as portas cerradas, ainda com o microfone imaginário em punho, caiu na risada e cantou embriagadamente: 
“– Eu não sou besta pra tirar onda de herói - sou vacinado, sou cowboy - cowboy fora da lei...”.

Apesar de cambaleante, e com dificuldades para completar a letra da canção, ele até mandou bem, tanto no discurso de pastor canalha quanto na letra do Raulzito... O louco repetiu por vezes sua ladainha e sua cantoria desconexa, porém, sem plateia e não suportando o peso das próprias pernas, ali mesmo deitou e apagou!

Os loucos de outros tempos (e outros bares), também cascudos e avessos a aparelhos de barbear e banhos, juravam a Terra ser redonda e, além da forma esférica, insistiam que ela rodopiava, feito bailarina, em torno do sol... Outros, não menos insanos, afirmavam veementemente que o sertão viraria mar e o mar viraria sertão... Alguns psicopatas, geniais, tentavam nos confundir com suas filosofias 3D: “só sei que nada sei”, ou, “ser ou não ser, eis a questão”!

O louco da noite me fez lembrar que estamos carentes de loucos, mesmo sem banhos e águas de colônia... Carentes de loucos que, além de comer gafanhotos, pensem por nós... Que atravessem a madrugada estudando o movimento das estrelas... Que em noites desertas dancem e cantem, ainda que desafinados... Que conversem com extraterrestres, interroguem paredes  e urinem no pé do poste... Que gritem, nos seus microfones imaginários, que estamos à deriva, entregues aos que comandam e se julgam poderosos, mas, nada sabem além de trinta dinheiros!


Sim, sou fã assumido dos loucos... Mas estamos necessitados deles - meio órfãos dos loucos, de palavras loucas... Dos loucos que nos remetam reflexões...  De loucos que pintem abstratos com cores vivas e nos ensinem o real sentido da vida!

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A MENINA E O LEITE DE ROSAS

Das irmãs foi a primeira a, sozinha, enfrentar o mundão e batalhar seu sustento. Desembarcou em São Paulo no momento em que o sol se escondia por detrás dos prédios... Assustou-se no momento em que desembarcou na Estação Júlio Prestes... O dinheiro, contado, duraria no máximo três dias e era só pra alimentação! O difícil seria ignorar as vitrines multicoloridas e sedutoras.

Ali estava, miúda, escondida debaixo de seus caracoizinhos loiros, com medo do incerto, pouco dinheiro e uma puta vontade de acertar.

E acertou! No segundo dia já estava empregada, no final do terceiro mês já era chefe de departamento. As vitrines com luzes de neon agora eram acessíveis! 

Casou-se tão logo terminou de ouvir o LP do Belchior... A semelhança física do artista com o namorado sugestionou sonhos filosofais e embarcou na letra da canção:

 “... Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente. Tome um refrigerante, coma um cachorro quente. Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem... Tem essa pressa de viver... ”

Pressa de viver, bem isso... Teve que abandonar a vida profissional para cuidar das filhas, porém, a viagem matrimonial, após anos, não suportou as turbulências, momento de buscar outras batalhas e, quem sabe, outros amores - menos incertos.

Ela não fez outra coisa na vida a não ser lutar... lutar... lutar! Acertou muitas vezes, errou outras tantas, porém, jamais poderemos criticá-la, afinal, todos erramos (primeira pessoa do plural), portanto, sem julgamentos pessoais!

O que fica pra mim, Dóris, é sua imensa disposição de ir à luta – de não se entregar facilmente!

O que marca pra mim, Dóris, é sua imparcialidade diante de erros e preferências alheias:  - “Deixe cada um ser feliz do seu jeito” – essa sua frase é muito forte e abrangente.

Ainda hoje me envergonho do dia em que, quando estudávamos na 6ª série, no Caló, tirei você no “amigo secreto” do final do ano... Sem dinheiro, encontrei um frasco de “Leite de Rosas” no lixo, enchi com água, embrulhei pra presente e te entreguei no dia da revelação! 

Hoje te peço perdão... Definitivamente eu não tinha recursos – única forma que encontrei para te presentear... Hoje eu te daria um estojo completo com lavandas do Boticário, pode apostar!

Sei que, no instante em que ler isto, suas lágrimas cairão, uma a uma, e acredite, estarei torcendo por você, pois, se bem te conheço, tu estarás em algum canto do mundo, lutando, em busca da felicidade! 


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

AS NOITES COM MEU PAI

- Hoje faz quatorze anos que meu pai partiu definitivamente... Flávia disse isto na hora do jantar, também contou que esteve, na parte da tarde, no barracão da Prefeitura - último lugar em que o pai trabalhou... Completou que, apesar da saudade, ficou feliz por ter ido lá, e que, naquele instante, sentiu a presença do pai.

Suspirou novamente e, enquanto bebericava um copo de chá verde, se lembrou do tempo em que o pai fazia a contabilidade da empresa de transportes do avô e do tempo em que ele prestava serviços para outros contabilistas da cidade... 

Afirmou que ele era um grande datilógrafo e que as “Remington’s” adoravam sentir a suavidade e velocidade de seus dedos - ele as tratava como um pianista trata seu piano - com amor!

Visivelmente emocionada disse que o pai sempre fez tudo pra ela e que ela sempre o teve como um ídolo... Disse ainda que, sabendo da insônia crônica que o pai sofria, por muitas noites caminhou de mãos dadas com ele, enquanto a cidade dormia indiferente. Naquelas noites, atenta, escutava as estórias do pai enquanto os guardas-noturnos riscavam a madrugada com seus apitos de alerta.

Após estas afirmações, parou por um instante e perguntou:

- João, será que meu pai sentiria orgulho em me ver dirigindo um carro da Sanepar?

- Será que, além disso, estaria grudado com meus filhos passeando por aí?

- Tenho certeza que sim – respondi de pronto, Toninho sentiria orgulho de você em qualquer circunstância!

Ela disfarçou um leve sorriso e, certamente, seguiu lembrando o chapelão e a capa preta com a qual seu pai flanava, ao seu lado, nas noites platinenses, tendo como testemunhas, apenas, as estrelas do céu!



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O MILAGRE DE SÃO DOMINGOS

O temporal daquela tarde de oito de agosto, dia de São Domingos, tinha sido severo: derrubou árvores, pontes e fez o Rio Pardo transbordar, porém, o jovem José, na condição de Festeiro da capela de São Domingos, avisa aos pais, Zico e Gabriela, que estava indo para lá pra preparar tudo e que sua irmã Helena, a qual não desgrudava, ia também.

Arreou a carroça e quando já saía ouviu dona Gabriela gritar do portão:

- Cuida da Helena!

 - Pode deixar - respondeu José – e seguiram rumo ao São Domingos.

Passava das seis da tarde e o céu, ainda carrancudo, fez com que o manto da noite cobrisse, rapidamente, aquela estrada toda enlameada, mas, seguiram mesmo assim... felizes!

Quando já tinham rodado uns três quilômetros perceberam que as luzes de Santa Cruz iam ficando pra trás... Em seguida visualizaram um clarão, intenso, vindo ao longe... Pensaram se tratar de algum carro... Mas, à medida que apressavam a toada, mais a luz se aproximava, com mais intensidade ainda, fazendo movimentos de zigue-zague.

Eis que, feito um raio, a luz misteriosa para, por uma fração de segundos, e explode na frente do Ligeiro... Ele se assusta, empina, quebra os braços da carroça e desaparece no meio do mato... A carroçinha tomba para o lado machucando a mão e o rosto da menina Helena, que chora desesperadamente... Enquanto José tenta acalmá-la, outras pessoas, que iam para a festa, vão parando para socorrê-los. Parou para prestar socorro, entre outros, o senhor João Alexandre Pereira que levava consigo, seu filho, Octacílio Pereira um rapazote com o qual a menina Helena, por tempos, vinha trocando olhares nas missas dominicais.

Antes de retornarem alguém avisa em voz alta:

- Melhor cancelarem a festa... A chuva fez um buraco monstruoso no meio da estrada!

José caminhou até o buraco e vendo o tamanho do abismo que a chuva criou, olhou para o céu e agradeceu a Deus e São Domingos... Ficou a certeza de que aquela “luz” foi um sinal de salvação.

Naquela noite assustadora, São Domingos operou dois milagres: Salvou a vida dos irmãos e, também, colocou o jovem Octacílio na vida da menina Helena... O resto da história é a fantástica família que construíram juntos.


Hoje ao completar 90 anos, mando um beijo carinhoso no coração da menina Helena, além de irmã, uma grande amiga do nosso pai - José.  Não esquecendo, também, que sua vida linda é fruto de um milagre de São Domingos!